sábado, 21 de maio de 2011

Realengo e desarmamento

Mais um da série "desenterrando posts não postados"; esse aí foi logo após aquela tragédia na escola carioca. Interessante que, pouco tempo depois, já estamos falando de outras coisas - o assunto já foi o casamento real, o casamento gay, o pallocci...

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À época do plesbiscito sobre a proibição do uso de armas, votei a favor da proibição. Em muitos círculos sociais que frequentava, era voto vencido - a maioria esmagadora era contra. Hoje, dias após a tragédia do realengo, volta-se a falar com força sobre isso e, aparentemente, alguns setores que, antes, colocavam-se contra, põe-se agora a favor. O que eu penso? Bom, seria muito cômodo dizer algo como "pois é, era isso que eu pensava", mas como tudo no Brasil que gera um certo consenso costuma estar errado...No colégio, eu tinha um professor de história que fazia provas teste, apresentando duas sentenças, e as alternativas eram algum tipo de relação entre as frases, algo como "as duas afirmações estão corretas, mas a segunda não explica a primeira".

Então, nesse caso, acho que é isso: sou totalmente a favor do desarmamento, mas tomar isso como a grande solução para evitar esse tipo de caso que aconteceu no RJ é besteira. O furor com o que se discute, agora, esse assunto, só pode ser entendido como a necessidade de se ocupar de algo.

Por que sou a favor do desarmamento (do ponto de vista jurídico, ou seja, a proibição total do porte e uso de armas de fogo por civis)? Bom, são vários motivos. Na verdade, acho que a pergunta deve ser invertida: em uma democracia, o uso da força é exclusividade das forças de proteção do Estado. Existem motivos para permitir que civis portem armas? Acho que, de forma geral, esgotamos esse motivos. Por exemplo,o argumento do direito individual: uma irresponsabilidade de alguns não pode privar o direito de muitos. Mas direito vem unido com responsabilidade, com arcar com ônus e bônus. E quem arca com o ônus da arma? Não é o portador. Estatísticas mostram um alto percentual de acidentes com crianças (por pais que tem armas e não conseguiram esconder direito), de armas "legais" sendo roubadas e armando ainda mais a bandidagem etc. Uma outra estatística é a que mostra que a maioria dos homicídios é de proximidade: briga de trânsito, disputas familiares ou de vizinhos etc. Quem arca com esse custo social? Aí vem aquele argumento "ah, mas automóveis matam mais do que armas, vamos proibir também os automóveis?". Deveria ser óbvia a diferença, mas vá lá: o objetivo principal de um automóvel é locomoção - causar acidentes é um desvio. Qual é o objetivo principal de uma arma mesmo? Ai tem aquele outro arguemento, de que há áreas do país que o Estado não alcança e as pessoas precisam se proteger: quer dizer que, nessas áreas, o Estado não chega para trazer proteção, mas chegaria para punir alguém descumprindo a lei de desarmamento? Ora essa, se vamos ser ser coniventes com a própria falta de competência do Estado, não sejamos em termos de legislação - sejamos na prática, tendo leniência com a fiscalização e punição em especificidades regionais.

Isso tudo posto, continuo achando que uma coisa não tem muita relação com outra - um doente mental, com um plano trágico como esse maluco do RJ tinha, vai dar um jeito de arrumar uma arma. Alguém que "desistisse" do seu plano por uma dificuldade adicional de achar uma arma não estaria, nem de perto, no nível de desequilíbrio para tomar uma atitude dessas. Tampouco parece-me razoável discutir "segurança" nas escolas - primeiro porque não conseguimos nem bons professores de português e matemática, vamos conseguir um nível satisfatório de segurança? E depois, se as escolas estiverem bem protegidas, qual será o próximo passo? Hospitais, shoppings, igrejas? Alguém com esse intuito pode achar o lugar que bem entender para promover o terror - vide o caso do cinema em sp ou do maluco que bateu com o taco de baseball na cabeça do outro numa livraria. O desarmamento, além de conceitual - estabelecer na constituição que, não, o cidadão comum não tem direito a fazer uso desse tipo de força para "se defender" - tenderia a diminuir essa morte por proximidade. Em alguns momentos, a ocasião faz o ladrão - a briga, a discussão, a rixa, poderiam acabar de maneira menos trágica se o cabra não tivesse uma arma em casa; não fosse assim, não teríamos especificação, na legislação, de homicídio premeditado. Mas o mundo moderno, infelizmente, terá de conviver, de tempos em tempos, com eventos como esse do RJ.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Top Chef

Aproveitando a fase de baixa produção bloguística, vou entrar no embalo do texto da Deise sobre o Seriado Top Chef e postar um texto que eu tinha escrito sobre um episódio desde mesmo seriado, mas nunca tinha postado.

* * *

Já escrevi textos aqui inspirados em algum episódio dos seriados que costumo assistir. Dessa vez, o seriado é Top Chef, uma espécie de reality show com chefs de cozinha. Gosto do seriado porque alia coisas de legal de cozinha - os desafios são sempre preparar algum tipo de prato, um menu, uma sobremesa - com os conflitos entre as pessoas característicos de um reality. Pena que não assisto mais porque, além de nem saber o dia e horário que passa, não consegui achar para baixar na internet. Esse episódio que inspirou o texto eu peguei de orelhada - não estava acompanhando a temporada episódio a episódio.

Enfim, ao episódio: é uma etapa das mais conhecidas para quem acompanha o programa, chamada de "restaurant war" - os chefs são divididos em quatro grupos, e cada grupo tem 1 dia para montar um restaurante com menu próprio. Eles tem de pensar num menu simplificado (duas entradas, dois pratos principais etc), uma hora para comprar os ingredientes, três horas para pré-preparar os pratos quando, no final, um grupo de pessoas e os jurados comerão nos 2 restaurantes e farão julgamentos. Como disse, não estava acompanhando a temporada, então minhas impressões são apenas desse episódio. Um dos grupos parecia mais unido, e já tinha ganhado o desafio anterior; as decisões eram tomadas em comum acordo dos participantes, de maneira mais harmoniosa - tudo parecia fluir mais tranquilamente. Já o segundo grupo parecia mais segregado, mas tinha um chef que (pelo que entendi, os jurados consideravam esse jurado um dos melhores participantes) meio que mandava no grupo: discutia todas as sugestões, barrava as que não pareciam fazer muito sentido, tentava coordenar o grupo - claro, à custa da cara feia dos outros chefs e, durante as etapas da competição, até algumas rusgas.
Bom, acontece que o segundo grupo, do chef brigão, ganhou o desafio. Ganhou não, deu um baile, a ponto dos jurados comentarem que o desempenho deles tinha sido o melhor das seis temporadas do programa, enquanto o outro grupo foi criticado em quase todas as decisões - menu, execução de prato, atendimento no salão etc.
A tarefa que os participantes tinham que desempenhar era de extrema pressão, e exigia, entre outras coisas, capacidade de decisões acertadas em curtíssimo prazo (coisa que, parece-me, é bem característica da atividade de Chef). Capacidade de raciocínio rápido, bom senso e eficiência não são habilidades comuns na maioria das pessoas - é para isso que existem líderes, alguém que (supostamente) tenha a capacidade de direcionar o grupo para ações de maior eficiência. Guardadas as devidas proporções, há certas situações que o "bom mocismo", a gentileza, a preocupação excessiva com o sentimento dos outros não se coadunam com o bom resultado prático: o grande cirurgião na emergência não vai pedir ao médico iniciante "por gentileza, você pode fazer esse corte aqui, porque sabe, aqui passa a artéria xpto..."; grandes generais da história, que ganharam grandes batalhas, não deviam discutir minuciosamente seus planos de guerra com muitos subordinados; técnicos de sucesso, como Telê, Felipão, Luxa, Muricy, Mourinho, não são amiguinhos dos jogadores nem pedem "por favor, v. sa. deve acompanhar o volante do outro time até o final, viu...".
Não se trata de pregar a falta de tato com as pessoas, é apenas que, às vezes, não dá para se preocupar tanto com isso. No caso dos chefs, o cara pode ter ferido sentimentos, mas levou o grupo a uma grande vitória e todos se safaram da eliminação. Em empresas, isso acontece também: é comum os "chefes" terem como característica algo que flutue entre "o chefe gente boa mas que não te consegue um aumento", justamente porque os resultados são fracos, e o "chefe meio casca grossa mas que consegue tudo que quer", porque ele dá muito resultado e, consequentemente, tem moral com o povo de cima. Claro, existem pessoas - e eu mesmo já tive chefes assim - que aliam um pouco das duas características, mas é incomum.
Cafuné não enche barriga, e afinal para isso que a gente tem mãe, esposa, namorada...no trabalho, as vezes é mais importante produtividade, eficiência, nem que isso custe um pouco de delicadeza. Não sei se isso é característico do brasileiro, mas sinto que a gente tem a tendência de hipervalorizar o "bonzinho" inepto que, no final das contas, produz muito pouco.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Satisfação

só dando uma satisfação aos eventais gatos-pingados leitores do blog ehehe: esses dias decidi me dedicar a um novo projeto que tem tomado bastante tempo; imagino que daqui a algum tempo eu me adapte melhor às novas atividades e volte a postar aqui de vez em quando!

sábado, 16 de abril de 2011

As 7 melhores séries de TV da História

Há uma frase muito refinada e de sabedoria profunda que diz: "opinião é que nem bunda: todo mundo tem a sua"...pois é, a lista reflete apenas a minha opinião das séries que já assisti. Ainda sim faz-se necessário alguns esclarecimentos. Por ex, não me lembro de ter visto uma febre tão estrondosa quanto Lost - na época, conheci muita gente literalmente viciada. Mas eu nunca vi um episódio de Lost, então não dá para estar na lista, assim como a maioria das séries que existe, porque não as vi. Em quase toda lista de melhores seriados que já se fez em revistas ou jornais americanos, Simpsons sempre aparece em primeiro ou, pelo menos, nos primeiros lugares - do ponto de vista de conteúdo, também apareceria na minha, mas é mais um desenho do que um seriado. Não teve o desafio de escolher atores e estar exposta à atuação (brilhante ou medíocre) que esses atores teriam por cada papel - então também excluí da lista. Um exemplo característico dos critérios da lista é a série "two and a half men" - dificilmente consigo achar um episódio desse seriado ruim. Mas é uma série mais recente, os temas, embora sempre bem explorados, são meio repetitivos - dei importância a uma certa universalidade. Bom, chega de enrolation, em cada seriado eu também tento me lembrar de algum episódio que me marcou muito.

7 - Seinfield
Quem nunca viu esse seriado, se pegar aleatoriamente um episódio para assistir provavelmente achará um tanto sem graça - mudou muito a dinâmica desse tipo de seriado. Mas além de Jerry Seinfield ter sido o precursor de um determinado tipo de humor na televisão americana, conseguiu fazê-lo com muita simplicidade, com temas do cotidiano, com a dinâmica dos personagens que, afinal, eram pessoas muito parecidas com qualquer um que a gente conheça. Quando se conhece um pouco dos personagens, qualquer episódio de Seinfield torna-se engraçadíssimo...lembro-me de um em que o personagem George Constanza está tendo problemas para sair com mulheres, e aí o pessoal acaba tentando ajudá-lo, dando confiança para falar com mulheres nos lugares - é bem engraçado!

6- House
O que começou como um trama apenas em volta de um médico prepotente amalucado conseguiu-se firmar como um seriado de altíssima qualidade, em vários aspectos. Claro, o personagem de Hugh Laurie - e a sua atuação - é 60% da coisa, mas não é só isso; há as discussões médicas, que para quem gosta - e para leigos como eu - parecem bem embasadas; há toda uma discussão, por conta da história dos pacientes ou dos próprios médicos que compõe a equipe de House a cada momento, sobre as verdadeiras razões do comportamento humano. E House pode ser um verdadeiro soco no estômago com suas opiniões e posicionamentos - egoístas, arrogantes, mas nem por isso menos verdadeiros...vários episódios são fantásticos, mas ressalto 2: o episódio onde descobrimos daonde vem o problema da perna dele, e o episódio onde um paciente entra na sala de diagnósticos e dá um tiro no House (claro, ele não morre...).

5- Boston Legal
No Brasil não é dos seriados mais conhecidos - eu mesmo conheci recentemente por indicação de uma pessoa próxima. Mas logo que conheci devorei as 3 primeiras temporadas rapidamente. É o dia a dia de um escritório de advogados em - óbvio - Boston; os julgamentos e as questões jurídicas são pano de fundo para discussão de grandes problemas americanos - as guerras, republicanos x democratas, direitos de expressão, tolerância religiosa etc - e os dramas pessoais dos personagens. Tudo permeado com humor - que as vezes chega a ser pastelão, mas uma vez que você se habitua, passa a ser bem engraçado. Os episódios de final de temporada costumam ser em outras cidades, e são sempre muito bons; fora disso, tem um que Alan Shore e Denny Crane vão pescar que é simplesmente hilário!

4 - Married with Children
Bom, quem não conhece Al Bundy está perdendo a sabedoria de uns dos grandes sábios desse mundo eheheh...para os mais modernos, é o mesmo ator de Modern Family, casado com a cubana. Certamente esse tipo de humor e sátira ao american way of life inspirou depois os Simpsons - produzido pela mesma Fox; essa série de tv talvez tenha sido a primeira a adotar esse tipo de humor ácido e crítico a sociedade americana. Isso tudo a parte, o seriado é muito engraçado! Os atores caíram muito bem nos seus personagens, desde os fillhos do casal Kelly e Bud e até os vizinhos! Bom, faz quase 25 anos que a série foi lançada, então todo o cenário, as imagens, as roupas, está tudo muito diferente de hoje; ainda sim vale muito a pena. São muitos episódios muito bons e não lembro de quase nenhum inteiro, mas aquele que o Bud tem um clube de amigos que são apertadores de seios é de rolar no chão de tanto rir (para homens em especial, mulheres certamente acharão uma bobajada sem fim!)

3- 24 horas
Ok, Jack Bauer é uma mistura de Mcgyver com Capitão Nascimento, e o tema, no final das contas, é aquele ideal republicano - uma guerra americana contra o terrorismo que se utiliza de métodos nada ortodoxos (o fato do seriado ser produzido pela Fox já é algum indicativo...). Mas ainda sim, é do car*!! A proposta totalmente inovadora de fazer um seriado em "tempo real" (cada episódio da temporada de 24 episódios é uma hora em um dia) dá muito certo e não enjôa; também houve inovações nas câmeras, nos enquadramentos (como naquelas montagens onde você vê quatro cenas ao mesmo tempo). Poderia ficar repetitivo e sem graça, mas não fica - os temas se renovam, e quase nunca as coisas dão certo - as pessoas morrem, os terorristas tem sucesso em algumas ações, os bonzinhos nem sempre são bonzinhos e assim por diante - de modo que você não sabe o que esperar, mesmo. Não se discute nada, é a ação pela ação - ainda sim, é muito bom. É difícil apontar um episódio porque cada um é diretamente conectado a história na qual está encaixado, mas o último episódio da primeira temporada é marcante - talvez porque lá você tome a primeira grande porrada e pense "bom, então esse seriado é assim mesmo?" eheheh

2 - Anos incríveis
Esse, então, é indiscritível de bom, para quem gosta de drama. Os caras conseguiram, com uma sensibilidade sem fim, transformar a supostamente ingênua vida de um pré-adolescente no cenário ideal para discussão dos maiores dramas da nossa vida: relacioamento amoroso, familiar, com amigos, medo de rejeição, desejo de agradar etc etc etc. Sem apelar, com recursos simples, ótimas atuações, questões muito complexas são tratadas de forma magistral. É um p* seriado, daqueles que dificilmente consegue se repetir. O episódio que o Kevin vai no escritório do pai deve fazer muito adulto pensar muito - embora eu tenha assistido enquanto ainda estava no colégio...

1- Friends
Não dava para não ser o primeiro da lista..Podia perder para algum outro em algum aspecto específico, mas na soma ganhava de longe! São 10 temporadas de um seriado muito bom, em alto nível (embora as últimas temporadas já estivessem um pouco sem graça), com ótimos roteiros, ótimos personagens, atores que se encaixaram perfeitamente nos seus papéis. É de longe a série que mais assisti - há episódios que sei as falas de cor. E marcou uma época também, uma geração, um certo estilo de ser - embora fosse uma série de comédia, os conflitos que eles viviam podiam ser vividos por qualquer um. Quem não conhece, alugue ou baixe a primeira temporada, mas já aviso - arrume tempo para assistir, aos poucos, todas as outras, pois você vai viciar. Difícil escolher episódios, mas lembro de ter caído no chão de rir da primeira vez que assisti o episódio onde o Joey assume a culpa por uma série de coisas que acontecem para ninguém saber que a Monica e o Chandler estão dormindo juntos.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

De quem é o dinheiro público?

Tem uma frase, que já ouvi há muito tempo e mais de uma vez, que diz mais ou menos assim: "Nos países desenvolvidos, o que é público é de todo mundo; nos subdesenvolvidos, o que é público não é de ninguém". Isso se traduz em uma atitude com as coisas públicas: se é de todo mundo, também é meu, então eu cuido, vigio, uso com responsabilidade, assim como faço com todas as outras coisas que são minhas; se não é de ninguém, eu não estou nem aí, e se for usar, uso sem cuidado, sem preocupação, como um saqueamento em uma região abandonada ou num caminhão caído à beira da estrada...

Em que tipo de pensamento geral em relação à coisa pública nos encaixamos no Brasil é desnecessário dizer. Mas isso tem uma repercussão ainda mais trágica quando se trata do dinheiro público. Acho que há uma sensação geral de que aquele dinheiro não é de ninguém, ou é do Estado, governo, como se essas instituições fossem algo que existissem por si mesmas. Por ex, quando nos indignamos com o salário dos deputados, minha sensação é de que existe mais um pensamento na linha de "p*, o cara ganha tudo isso enquanto eu ganho muito menos?" do que algo do tipo "p*, esse dinheiro tá saindo do meu bolso!!".

E uma coisa que, se não é causa, ajuda a manter esse comportamento, é a falta de percepção clara do quanto o imposto pago é dinheiro a menos na sua vida, dinheiro retirado pelo governo do seu bolso que poderia estar sendo usado por você para uma condição melhor de vida. Há pequenas situações onde essa indignação aparece: quem tem carro e paga ipva costuma ficar p* de pagar esse imposto e ver que pouca coisa é feita para melhoria das vias públicas; quem tem apto e paga iptu também sente coisa parecida. Mas é um sentimento nem tão intenso e que atinge apenas uma parcela da população. Uma coisa que poderia ser mais forte para estimular essa sensação é o imposto de renda. Mas pensa só: a população economica ativa brasileira é de 50%. Desse universo, há 10% de desemprego e apenas 50% dos empregados tem emprego formal - que pagam imposto. Dos que ganham salário formal, apenas os que ganhem, digamos, acima de 3 mil, sente efetivamente um volume de dinheiro sendo retirado de si (a isenção do IR vai até 1,5 mil, e alguém que ganha 2,5 mil, por ex, paga menos de 4% de IR sobre a sua renda, pouco para sentir alguma diferença...) - se considerarmos as diversas regiões do Brasil, e vários setores de trabalho, como chão de fábrica, serviço, saúdes, é até conservador estabelecermos que só 50% ganham acima de 3 mil (meu palpite é que é bem menos de 50%). Tudo calculado, pouco mais de 10% da população brasileira conseguem sentir diretamente o efeito do imposto de renda sendo subtraído mensalmente das suas receitas! O maior efeito do imposto na nossas vidas é o preço dos vários itens que consumimos que estão sempre majorados pela carga de impostos que foram incidindo ao longo da cadeia produtiva.

Uma coisa que poderia ajudar é se tívessemos alguma metodologia semelhante aos Estados Unidos: a cada coisa que você compra, você sabe claramente o quanto é o valor do produto e o quanto é o imposto. Em média, pagamos 40% de imposto; imagine que na sua passagem de ônibus, você estivesse sendo sempre lembrado de que dos 3 reais, 1,20 é imposto? Do pf de 8 reais na padoca, 3,20 é imposto? Do aluguel de 1000 reais, 400 reais é imposto? (no caso do aluguel, o imposto não é direto porque provavelmente o valor é cobrado por um particular; mas se entendermos que o custo total da economia está majorado em 40% por causa dos impostos, é de se imaginar que o dono do imóvel poderia cobrar 40% a menos). Acho que a lembrança diária de quanto dinheiro poderia sobrar para você caso os impostos fossem menores seria muito benéfica para que todos sentissem, quando o noticiário da tv anunciasse "deflagrada operação da PF contra corruptos que desviaram x milhões" todo mundo se indignasse e pensasse "FDPs!! tudo na minha vida é bem mais caro para esse bando de fdp me roubar desse jeito???"

O Brasil é um dos países do mundo com a relação custo x benefício para o contribuinte mais injusta. A Suécia tem o nível de tributação parecido com o nosso, mas o sistema educacional, de saúde e de suporte social é infinitamente melhor. A China tem sistemas de educação e saúde públicos piores do que os nossos, em geral, mas pelo menos o cidadão paga menos de 20% de imposto. O Brasil consegue aliar a alta carga tributária Sueca a um padrão chinês de baixa qualidade de serviços. E a gente tá cag* e andando para isso...toda vez que escuto coisas do tipo "governo pensa em criar estatal para cuidar do trem bala" eu só consigo pensar que devemos estar muito anestesiados, pois a indignação geral é um décimo do que deveria ser.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Planejamento financeiro

Eu não costumo ler colunas de jornal ou prestar atenção em participações especiais em rádio ou tv desses consultores financeiros; geralmente eles não falam nada que a gente já não saiba, ou pior, inventam alguma coisa totalmente sem sentido ou sem utilidade prática. Por força das circunstâncias, assisti uma pequena palestra dum famoso consultor chamado Gustavo Cerbasi, e acabei lendo um livro dele. Foi a primeira vez, que eu me lembre, de algum consultor ter falado algo diferente e que fizesse, para mim, muito sentido.

Não, ele não nega a premissa de que é preciso guardar dinheiro - e, para isso, é preciso gastar menos do que se ganha. Mas uma coisa que me chamou a atenção foi a maneira que ele propõe de organização de gastos que, além de diferente do que costumeiramente consultores financeiros propõe, era algo que eu fazia instintivamente. Primeiro, para começar, é preciso estabelecer o quanto se quer guardar por mês. Até aí, nenhuma novidade, inclusive na dificuldade de colocar em prática - a gente costuma ver quanto "sobra" no final do mês, e não determinar que se quer guardar x% do que ganha...mas vá lá: assim como outros consultores, ele propõe que, quem tenha dificuldade de disciplinar-se a guardar aquele valor, assuma um compromisso mensal - como a prestação de um apartamento ou de um consórcio de alguma coisa - de modo que, assim que o dinheiro caiu na conta, aquela parcela já saia automaticamente.

E aí vem a inversão interessante. O mais comum de fazermos é "começarmos" a estabelecer os nossos gastos por aqueles chamados gastos "fixos", estruturais - casa, carro etc. Tomamos esses gastos meio como dados - "ah, gasto x com o apartamento, mais y com o carro..." - e, o que sobra, fica para as coisas do lazer. Ele propõe a inversão da ordem dos gastos - que, depois de se ter "guardado" o percentual determinado, estabeleça-se o quanto vai se gastar (mais ou menos) com seu lazer primeiro - saídas, compras etc, e aí acomode-se os gastos fixos com o que sobrar. Antes de analisar isso mais a fundo, eu entendo que há importantes motivos para essa inversão.

O primeiro é quantitativo: gastos com estrutura geralmente são muito mais significativos - de modo que alterações desse tipo de gasto apresentam mais diferença. Por ex, há uma conta de que a gente gaste, em média, 2% do valor do carro por mês (em seguro, ipva, depreciação, custo do dinheiro que poderia estar investido, manutenção, as vezes garagem adicional, sem contar gasolina, apenas gastos ligados ao simples fato de ter o carro). Então, se você tem um carro de 40 mil reais, em média você gasta 800 reais por mês com ele. Os gastos para morar dessa pessoa, então, devem ser bem maiores do que isso...O tamanho da diferença que um alto ou um baixo gasto nesses aspectos pode produzir é grande se comparado a gastos de lazer (sem exageros), onde a diferença de alguma alteração pode não ser tão significativa. O segundo aspecto importante é a sustentabilidade de certos cortes de gasto. Tem aquele exemplo conhecido do cafézinho: se você deixar de tomar aquele café da tarde, que custa 2 reais, em dez anos você terá economizado 8 mil reais. Ok, mas quanto isso te custou em qualidade de vida, se esse é o momento que, toda tarde, você sai para descontrair um pouco, conversar com os amigos? Será que isso não afetará até a sua produtividade, podendo te prejudicar muito mais financeiramente? Embora sempre haja espaço para cortar gastos eventuais com lazer, há sempre o limite da sustentabilidade: será que aquele nível de consumo tão baixo é sustentável a longo prazo, sem te enlouquecer? Porque o que acontece é que pensamos "ah, mas se eu só gastar X com lazer, vai sobrar alguma coisa para guardar"; só que aí você compra uma roupa que viu, alguém te chamou para ir em algum lugar mais caro, faz 3 anos que você não sai de férias e...bum! lá se foi o que você ia guardar...O que nos leva a um terceiro motivo: uma mudança de padrão em um custo fixo (para cima ou para baixo) é uma mudança para todos os meses - aquele dinheiro sobra ou falta todo mês. Um corte em um gasto de lazer (por ex, não sair naquele final de semana) produziu um efeito específico naquele mês, mas para o efeito ser repetido, no próximo mês você deverá fazer o mesmo sacrificio.

Claro que não tem mágica; ele não sugere, então, que não haja controle ou parcimônia nos gastos com lazer, sem o que não há planejamento financeiro possível. Outra coisa óbvia mas que não custa falar é que esse tipo de lógica se aplica às pessoas cuja situação financeira permite algum tipo de arranjo - o trabalhador que ganha salário mínimo e mal consegue por comida na mesa é outra história. Mas ainda sim gostei da lógica que ele propõe que, como falei, pareceu-me bem destoante daquele coro velho e batido dos consultores financeiros...

sábado, 26 de março de 2011

BBB - texto do Rica Perrone

Há algum tempo eu queria escrever algo sobre o BBB; até esbocei, mas não foi muito longe. Agora o Rica Perrone escreveu um que, bem, era bem o que eu queria dizer ehehhe...apenas um adendo quanto aos "metidos a intelectuais": eu conheço pessoas que não perdem tempo com bbb porque, realmente, interessam-se por coisas com mais conteúdo. Mas na maioria das vezes as pessoas com o discurso que ele cita no texto realmente perdem tempo com coisas até piores...bom, segue lá:

O BBB que eu queria
Como a maioria, vejo o BBB sempre que possível. E gosto. Não, não farei o tipo de dizer que “é um lixo” pra assistir escondido.

Dizem os metidos a intelectuais que é um programa “sem conteúdo”. Eu nem acho tanto assim. Mas concordaria, porém, se alguém me falasse que é um programa repetitivo.

Toda edição a gente vai ver os 14 pra saber se tem conhecido. Não tendo, assistimos de vez em quando e ficamos sabendo o que rola pelas chamadas da Globo e capas de todos os portais web do país.

No primeiro dia eles cantam, pulam, se juram amigos e fazem promessas coletivas de “vamos fazer o melhor BBB! UHUUUUUUUU!”. Sempre tem um pra gritar: “Sem briga, galera! Na paz! Temos que dar exemplo pro Brasil!”.

Todos os demais, imediatamente, seguindo a mania pouco normal da juventude atual, gritam: “Uhuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!!!!!!!!!!!”, que traduzindo quer dizer: “Uhuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!!!!!!”.

Em casa eu penso: “Quando será que vai aparecer um cara pra dizer, no primeiro dia da casa “Ae galera! Vamo fecha o tempo nessa porra porque quem tá em casa quer ver o circo pegar fogo! UHUUUUUUUUU!”?

Todos sentam na mesa e vem aquele jogo de perguntas e respostas pra se conhecer melhor. É sensacional!

“Eu odeio falsidade”, diz a primeira.

“Quer me ver puta? Gente falsa. Ahh… eu não suporto!”, diz outro.

“Eu odeio fofoca. Acho que quer falar? Fala na cara, sabe…”, diz outra topeira.

E eu, sonhando em casa com um que vai colar dizendo: “Porra, me amarro em falsidade. Não falo na cara, faço joguinho e acho que vocês estão confundindo isso com o Parque da Monica”.

Seria meu ídolo.

Começam as sondagens pra saber a situação amorosa de cada um.

A gostosa diz: “Tô solteiríssima!” E a turma: “Aeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!!”

A feinha diz: “Eu to livre”. E um, normalmente viado, grita: “Uhuuuuuuuuuuu!”, sem companhia.

Até que passam os dias, eles vão se conhecendo e achando que são melhores amigos ha 10 anos.

O primeiro chora, e logo surge alguém que nunca viu o cara na frente pra dizer: “Cara, você é guerreira! Sabe quantos queriam estar aqui? Tipo, você já é uma vencedora!”.

Hã?

Vem o paredão e o confessionário me faz mudar de canal. São 14 caras que entram lá pra dizer: “Porra, adoro essa pessoa, mas é por afinidade, sabe? Já que tem que votar, vai no XXXXXX. Mas ó! Adoro ela!!!!”.

Vou sair comemorando nu na varanda quando alguém disser: “Eu voto no Ciclano porque acho ele um cu!”

Ah que beleza seria. Mas não será.

Eu me divirto. Não exatamente com o que eles falam, mas pensando no que eu gostaria que eles falassem.

Quando um emparedado fica, ao invés de gritar “Obrigado Brasiiiiiiiiiiiiil!” no jardim, espero sempre que ele vá até a porta e grite: ‘Chuuuuuuuuuuuuuuupa Ciclano!” pro que saiu.

Mas eles são muito previsíveis.

abs,
RicaPerrone